1968. O passado ainda presente

 

  O livro “1968: O ano que não terminou“ (Nova Fronteira, 2006, 332 páginas), do jornalista e professor universitário Zuenir Ventura, não se assimila a um relato de protestos maniqueístas, de jornalismo investigativo ou conto policial. É uma narrativa agradável que não é “fácil de ler”. É simplesmente bem construída. Proporciona ao leitor a sensação de envolvimento com os fatos.

 

  Com muita fidelidade, o autor mostra tudo que a data representou. Foi a afirmação da revolução cultural ou mais arriscadamente da sociedade e sua forma de pensar, agir, sobre qualquer assunto que fosse. Difícil é denominar realmente o que foi 1968. As bandeiras eram questionar e experimentar. O que? Tudo. Houve abertura no comportamento sexual, político, mudanças de valores sobre o casamento, fidelidade, virgindade e liberdade sexual. Conquistava-se a emancipação feminina, o direito racial e o de se expressar.

 

  A trama direciona o olhar para os acontecimentos no Brasil, já comandado pelos militares. Vê-se um país atuante, em que o jovem não é um enfeite ou um robô condicionado à alienação e sim um ser politizado, atuante, capaz de lutar e conquistar seus ideais. A camada intelectual e artística não estava sentada em sua mesa ou preocupada com a evidência na mídia, como acontece nos dias de hoje em que a preocupação é fazer do público mero espectador passivo. Populares e movimentos lutavam pelo novo mundo. Grandes exemplos dessa união entre classes e grupos foram o enterro do estudante Édson Luís, morto no restaurante Calabouço, no centro do Rio de Janeiro, mobilizando milhares de pessoas. Assim também foi a histórica e pacífica Passeata dos 100 mil pelas ruas do Rio. Zuenir emerge o leitor em tais acontecimentos mostrando um país ativo.

 

  A ditadura estava instalada. Junto, a censura e o abandono da educação revoltavam os estudantes e a população, que reagia a cada atuação repressiva. E não só pela força física. Mas pela capacidade e criatividade intelectual de artistas e militantes. São exemplos espetáculos como a peça “Roda Viva”. Já na música tem-se o Tropicalismo, de Caetano e Gil, maiores representantes, que inseriam guitarras elétricas e letras revolucionárias. Chico Buarque mostrava canções de protesto. No cinema, o marco era Terra em Transe, do diretor Glauber Rocha. É fascinante a vontade de criar, mesmo com a censura que tentava restringir, às vezes com sucesso, toda criação cultural ou jornalística. Fechavam jornais, revistas, peças teatrais, colocavam o censor para dizer o que deveria ser publicado. Nos dias de hoje parece absurdo, contudo a nação vivia quase uma Inquisição.

 

  O regime ditatorial aumentava seu sistema de repressão que tomava rumos cada vez mais sérios. Era um ambiente, como diz Zuenir, de “caça às bruxas”. Instalava-se a espionagem, a tortura, o exílio, a prisão dos considerados transgressores do bem estar social. O Brasil parecia viver um estado de sítio inflamado, que quanto mais se tentava apagar mais ele crescia. Os milicos cometiam atrocidades chocantes. Na verdade, transgrediam a ordem das coisas, do ser humano. A luta, encabeçada pelos estudantes tinha razões para tanta repugnância contra o Estado. Os ataques eram constantes, a exemplo da invasão da UnB (Universidade de Brasília), que foi um ato inconseqüente e humilhante para os que foram presos e espancados. Tal violência ocorreu também no 30º congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes) na cidade de Ibiúna (SP). Estudantes devem ser considerados heróis. Não no sentido piegas ou de salvadores da pátria. Apenas deve-se reconhecer sua importante atuação para tantas conquistas, ainda desconhecidas.

 

 

  O golpe final dos militares, que reforçava o autoritarismo e a censura, foi o AI-5. Parecia que ali a luta do movimento estudantil, já enfraquecido, acabava. A juventude atacada pelo governo, por anticomunistas, que pareciam mais anti-humanistas, enobrecendo as barbaridades cometidas. Intelectuais, jornalistas, estudantes e artistas foram exilados, presos, torturados e, às vezes até mortos. Os assassinos foram acobertados como se nada tivesse acontecido. Parecia que o fogo do combate apagara. Contudo não foi isso que aconteceu.

 

  A obra de Ventura ressalta tanto acontecimentos e lutas quanto as transformações e a produção cultural. Percebe-se que em vez de ter perdido para o poder, o ano não acabou sem nenhum aprendizado, como se o tempo tivesse zerado. Sucedeu-se o inverso. Toda essa herança se reflete até hoje na sociedade. Tabus foram quebrados, direitos conquistados, a música, o cinema o teatro ganharam importância como manifestação política e existencial.  Vivenciamos outro espaço e tempo, mas não há revoltas com a mesma intensidade como em 1968. No entanto, o homem exerceu seu papel de “motor da história” (Karl Marx) dando grande contribuição para a conquista da liberdade que hoje podemos usufruir.

 

  Zuenir Ventura, ao escrever “1968: O ano que não terminou”, somente pelo título mostra o quanto a data significou para a formação e história do povo brasileiro. E também para o mundo. É um registro de um ano que valeu por uma década diante sua importância e seus personagens. É a história contada por quem a viveu. Esclarece e dá um panorama do que foi. O período, em que era “proibido proibir”. Fomos até o fim para honrar as palavras da música de Caetano Veloso.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Arquivado em 1968

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