Não mirem-se no exemplo das mulheres de Maneco

 Há cerca de alguns meses, podemos ligar a televisão e assistir “Páginas da Vida”, mais uma novela de Manoel Carlos. Como de praxe, o cenário são praias do Rio de Janeiro, abertura com alguma canção da bossa nova, uma Helena (Taís Araújo) e várias personagens femininas.

 Suas produções são reconhecíveis pelas repetições e usos de clichês. Tal denúncia já pode ser identificada logo no primeiro capítulo, que foi ao ar no dia 14 de setembro de 2009, no horário nobre das 21h. As mulheres de Manoel Carlos são estereótipos que direcionam suas vidas, somente, para conquistar homens, beleza e dinheiro. O que mais me impressiona é o exagero de todos esses “objetivos para a felicidade”, é como se o autor quisesse saciar a sede de seu público, saudoso de suas histórias descompassadas com a realidade.

 Tudo é apenas uma reprodução, principalmente, em relação ao elenco feminino. Logo nas primeiras cenas começa a avalanche de conceitos ultrapassados. No primeiro capítulo fiquei assustada com o que vi: primeiro mostram Helena (protagonista) em um programa de TV para relatar sua vida privada como uma modelo de sucesso, falando de amores passados, como gasta seu dinheiro e etc… até ai tudo bem. Mas, não tarda para aparecer o protótipo da virilidade, Marcos (José Mayer, é claro), em uma briga com sua ex-mulher, Tereza (Lília Cabral). Ela aparece como rancorosa e mal resolvida, seu papel fica claro quando o personagem de Mayer fala “como você é chata. Cacete!”; nessa concepção a fêmea neurótica é alguém que não vive sem o sexo masculino e que precisa tomar atitudes drásticas e mendigar sua atenção.

 Posterior à briga com Tereza, ele reclama com seu amigo e sócio, Gustavo (Marcelo Airoldi), sobre o comportamento equivocado da ex, mostrando que é o dono da razão e ela (adivinhe?) uma louca, claro né. Além disso, é muito mais fácil dar-se credibilidade a um empresário de sucesso, como é o caso dele, do que a uma dona de casa dondoca. Marcos reforça sua opinião na conversa com Gustavo: “a Tereza fez mais uma daquelas cenas”.

 Em alguns parágrafos podem-se enumerar cenas e cenas, cansativas e recheadas com um machismozinho disfarçado de “entendimento da alma feminina”. O diretor da novela só  reorganiza as peças. As tramas dele ganharam fama por retratar as mulheres. Mas que universo feminino é esse? É claro que há aspectos com os quais as telespectadoras se identificam, mas o modo de abordagem cria uma Amélia disfarçada de modernidade, só para mascarar sua concepção machista.

 Percebe-se uma ação silenciosa em reforçar o senso comum, o conformismo de que “a mulher é assim mesmo”. Assim como? Uma delirante? Uma caçadora de maridos? Como disse a intelectual feminista Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher: torna-se”, tudo é uma construção para que se perpetue a mulherzinha. Não pretendo disseminar uma queima de sutiãs, mas, em relação ao tema, prego o politicamente correto sim! Que não é um termo chato não, mas sim uma exigência de respeito.

 Ainda não estou satisfeita com os argumentos apresentados. Outra situação clichê, e esta é a melhor palavra para designar a novela, é amizade impossível entre mulheres. Helena e Luciana (Alline Moraes) aparecem primeiro em uma situação de solidariedade, porém em pouco tempo, por algum motivo nada aparente, a personagem de Alline Moraes cai na passarela de desfile e coloca a culpa em Helena. Tal situação cria um clima rivalidade e a ideia de que o sexo feminino nasceu para competir: a mais bonita, a mais sexy, a mais conquistadora…

 A mulher é relegada a servir como bibelô.

Marcos, em mais uma conversa com seu amigo, fala que não quer ficar solteiro, pois precisa ouvir as “besteiras que elas falam no café da manhã”; ou seja, somos incapazes manter uma conversa com nível intelectual maior, não discutimos sobre trabalho nem política e sim como a unha da fulana ficou mais bonita. Falar sobre cuidados com a estética não é pecado. A questão é o reducionismo com que somos tratadas. Como se fossemos só isso: um bando de tagarelas fúteis, nascidas para dar prazer.

 O mais impressionante é que toda a carga de estereótipos ocorreu em aproximadamente 1h, em um primeiro capítulo. Imagine o que será veiculado até o final de “Viver a Vida”. Como as mulheres vão estar se enxergando? Como os homens irão enxergar as mulheres? Isso é uma pergunta, ainda, sem resposta. Mas acredito que seja válida a análise, pois a telenovela tem um significado forte no Brasil. Se a trama é relevante na construção sócio-cultural, deveria beneficiar a sociedade e não arraigar conceitos defasados.

Deixe um comentário

Arquivado em televisão

Entre o céu e a televisão

Um dia ao vasculhar a Folha Online, deparei-me com uma nota (segue abaixo) e resolvi testar meu, humilde, lado Gabriela Veríssimo.

 

Macedo faz pregação a artistas da Record, informa Outro Canal

da Folha Online

 O líder da Igreja Universal e dono da Record, o bispo Edir Macedo se reuniu na última terça-feira (26) com executivos e apresentadores da emissora para uma palestra sobre como conseguir sucesso. A informação é da coluna Outro Canal, assinada por Daniel Castro na Folha desta segunda-feira (1º).

A íntegra da coluna está disponível para assinantes do jornal e do UOL.

De acordo com informações da coluna, o encontro durou mais de três horas e envolveu também uma pregação religiosa.

Segundo testemunhas ouvidas pela coluna, Macedo falou aos funcionários que só se consegue o sucesso acreditando em Deus e dando ao próximo.

Ainda de acordo com o colunista, ao final do encontro, Macedo afirmou: “Vocês, artistas da Record, têm de acreditar em vocês mesmos para dar audiência. Se eu fosse artista, iria arrebentar!”.

 

O chamado divino

 Por Gabriela Sobral

ALELUIA!

 Encontrou-se uma nova fórmula para obter sucesso. Aulas de interpretação com o Bispo, por apenas 20% do seu salário. Nosso Pai agradece! O aquecimento inicia-se com a sessão do descarrego, mas não antes de se botar o copo de água em cima dos textos e câmeras, só assim a interpretação alcançará a excelência do reino dos céus.

 Mas, para chegar à revista “Rostos”… Ah! Aí vai ser necessário algo mais… Quem sabe uma ajuda ao próximo, para sua consciência ficar “limpa”? Assim como o professor (Bispo), que livra pessoas do alcoolismo, do jogo e da desgraça, com um simples toque mágico na cabeça e suas palavras tão repletas de graça. Se você não possui a “mão mágica”, serve  40% de seu ganha pão ou  todo seu âmago artístico para contabilizar 30 pontos, a mais, na audiência.

 O talento e a vocação são apenas requisitos secundários para se alcançar o sucesso. O primordial mesmo é ouvir a palavra e acreditar nela, isso pode render quem sabe um anúncio publicitário de alguma grande empresa de cosméticos ou de uma esponja de aço dançante e, por fim, muitas cifras na conta bancária de nosso exímio palestrante.

 ALELUIA!

Agora você pode arrebentar! Basta ouvir umas palavras confortantes e encorajadoras e aprender técnicas de convencimento, tudo, é claro, em nome do Pai!

1 Comentário

Arquivado em crônica e etc

Nascido em 4 de julho

 

“Nascido em 4 de julho” (1989), do cineasta Oliver Stone, remete-se anascido_4_julho Guerra do Vietnã. Mostra o conflito injusto que foi, com uma série de danos irreparáveis tanto para os vietnamitas guerrilheiros como para o EUA e seus aliados. O filme não se prende a uma versão maniqueísta, dividindo bonzinhos de um lado e crápulas do outro.

  A trama é baseada no livro e na história real de Ron Kovic, interpretado por Tom Cruise. É a jornada de um jovem patriota que se alista no corpo de fuzileiros, para combater na Guerra do Vietnã. Influenciado pela família e pela ideologia de que lutar na guerra é um ato heróico. Ele consegue se tornar um herói de guerra, cheio de medalhas. No entanto, paraplégico e confuso.

   No retorno para casa tem problemas com sua família. Após um discussão com a mãe (Caroline Kava), parte para o México. Lá  enfrenta seus conflitos psicológicos. Cenas como a de os soldados americanos atacando um vilarejo, matando civis e crianças inocentes, choca nossos  olhares. Mostra a face de uma guerra sem sentido que deixou estragos, não só físicos. Mas no âmago dos que sofreram com ela. É o caso de Ron Kovic, que fica completamente atormentado com os horrores que cometeu e presenciou.

    Ao perceber que aquela guerra era injusta. O protagonista se torna um ativista e empreende uma campanha anti-guerra. O filme termina justamente com uma cena em que ele irá prestar seu depoimento contrário ás atrocidades que estavam sendo cometidas no Vietnã e a morte de milhares de jovens americanos.

     Com um olhar humanista. Stone mostra que a guerra do Vietnã, apesar de ter sido vendida com a propaganda do patriotismo, foi derrotada pela própria propaganda. Com protestos e imagens do que estava acontecendo.

 

1 Comentário

Arquivado em Uncategorized

Cenário do medo (1968)

Continue lendo

Deixe um comentário

Arquivado em 1968, fotografia

Casa

atgaaaa6rfkl99sbxsf6g2kgst47jjqhg2v0mfpxmyb2y-w4wftu0sla_xjf9yhjzq5vk-65_ogoa_390e5q36fglsb5ajtu9vahd-vvdcb13b4vworgohraytldua 

  Era uma casa muito engraçada. Tinha teto, tinha tudo. Todo mundo podia entrar nela.

  Era uma casa muito engraçada. Com uma parede azul, uma porta vermelha, um quadro abstrato que mais parecia um papagaio, outra parade, também, azul com umas gravuras do tio Armando, que pareciam pentelhos de mulher. Tinha livros, uma galinha de barro. Eu dormia na rede sim, porque na varanda tinha uma que era meio torta e que de vez em sempre dava uma dor na coluna, porém, quentinha e simpática.

  Podia fazer pipi, no entanto tinha que esperar um pouquinho (só existia um banheiro).

  Era uma casa muito divertida. Na sexta-feira eu comia uma massa com molho gostoso, tomando, quer dizer, entornando um vinho tinto seco, de preferência Cabernet Sauvignon. E quando tocava o Chico do meu irmão, eu dançava, o Blues Brothers do Tropeço, eu puxava para dançar, na vez do Caetano, eu me apaixonava.

  Era uma casa em que eu tinha um quarto para me diverti (ou não) sozinha. Pintar flores e frases na parede, ver filme, chorar, planejar: uma dieta, o dia de amanhã, dominar o mundo… Podia fazer faxina ou simplesmente dormir e sonhar.

  Era uma casa que tinha um quintal com um coqueiro, uns bagulhos e um sol no sábado de manhã, que era só meu e da Kalú. Acordava bem cedo para pegar ele e ficar preta.

  Ixi! Tinha um vizinho com uma tosse, que todo dia parecia ser o dia da morte. O escarro começava cedinho e nem sei quando terminava, era semelhante à um exorcismo.

  Ao lado direito, parentes. Os arrotos do primo e do tio ouviam-se de longe. A voz de comando da prima “Dot, Bela, Malú! Pra varanda, xixi, bora xixi”, seguido de “au, au, au” (histéricos), já tinha virado quase um despertador.  A tia quase não se ouvia, só quando ela chamava a Eliete e nos finais de semanas boêmios, regados de música e discursos hilários.

  Era uma casa com uma mãe histérica (“seus merdas, vocês não tem pena de mim. Quando eu morrer vocês vão falar ‘eu matei minha mãe’ ”), maluca (“prontico PI…”) , amorosa (“faz a boneca beijoca”), cheia de planos (“Gabi ta aqui o projeto da nossa casa”) e sábia (ela é antropóloga, arquiteta e professora de artes). Um irmão sarcástico, cheio de piadinhas inteligentes (ou não), amado e com a alma mais pura que já conheci. Um padrasto idêntico ao Tropeço da Família Adams, que como todo bom psicólogo era lento (“Éeeee…”) e meio peculiar. Uma pastor-alemão boba com os donos e caçadora de ratos e pombos. Uma cunhada companheira (“Bora no comércio?”) e imprevisível. Tinha um sobrinho que é o meu bem mais precioso, palhaço igual ao pai. Por fim uma garota “metamorfose ambulante”, que só quer ser feliz… Ah! Já ia me esquecendo. Tinha também visitantes, entre os mais queridos, Domi e Mandoca.

  Era uma casa com muito aprendizado, brigas, choros, reconciliações, beijos, desenhos no pé, muitas cores, aconchegante, bagunçada e com cheiro de incenso e colônia alfazema. Lá aprendi que: “o amor me move, só por ele eu falo” (Dante Alighieri), que “só o amor me ensina onde vou chegar” (não sei) e que “não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã” (Victor Hugo).

  Era uma casa muito engraçada. Era feita esmero, na rua dos felizes, número 600.

 

 

P.S: Não sei se escrevo no passado ou no presente. Não sei se fez ou faz parte de mim, da minha vida.

 

 

2 Comentários

Arquivado em crônica e etc

Heróis em todos os lugares

Continue lendo

Deixe um comentário

Arquivado em crônica e etc

A jornada da vida

jorn2 

 O livro A Jornada do Escritor: estruturas míticas para escritores (2ª edição. revista ampliada- Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006), do roteirista Cristopher Vogler, foi primeiramente elaborado como guia interno para roteiristas dos estúdios Walt Disney que enfrentavam sucessivos fracassos de bilheteria. Sua criação, baseada na obra de Joseph Campbell, “O Herói de Mil Faces” serviu como instrumento para elaboração de histórias que seguissem o modelo da jornada do herói.

 

  A jornada é encontrada em mitos, contos de fada e filmes. Divide-se em três atos que geralmente contém 12 estágios: mundo comum; chamado à aventura; recusa do chamado, encontro com o mentor; travessia do primeiro limiar; testes, aliados, inimigos; aproximação da caverna oculta, provação, recompensa (apanhando a espada), caminho de volta, ressurreição e retorno com o elixir. Tem o intuito de orientar o escritor em sua criação. A interpretação de que se deve segui-lo rigidamente é errada. Sua utilidade vai muito além de estabelecer regras de como fazer isso ou aquilo.

 

   A linguagem utilizada na jornada do herói pode render produções atraentes. No entanto, é preciso saber usá-la, explorando principalmente a figura do arquétipo. Eles são tipos de personalidades próprias dos homens. Quando representadas, há uma identificação do público, como se ele estivesse se reconhecendo, consciente ou inconsciente. Para os olhos do espectador, é atraente o que faz parte de sua natureza. É nesse ponto que a jornada trabalha querendo cativar. No próprio dia-dia o indivíduo se comporta como um arquétipo, para desempenhar sua função no meio que vive. Assim acontece nos filmes. Para saber o papel de um personagem, tem-se a necessidade de identificá-lo com algum tipo de personalidade.

 

   O arquétipo mais desenvolvido é o do herói. Ele é o personagem principal que vai empreender a jornada para a aventura, para o mundo desconhecido, lidar com testes, inimigos, vencer batalhas e triunfar. Apesar de ser flexível, ou seja, não precisa ser sempre o homem com capa e valente, necessita de características que promovam sua aceitação. As pessoas são heróis de sua própria história, todos têm barreiras a quebrar (como decidir ter um filho), desafios, inimigos no trabalho, metas que devem ser alcançadas (como passar no vestibular), o sucesso e principalmente, a felicidade. Mesmo que para tal tenha que fazer sacrifícios. É como se vissem suas emoções, vontades, angústias, sua vida representada.

   Os heróis são símbolos da experiência universal, o que não impede que as pessoas se identifiquem com outros arquétipos, como o pai que se vê no mentor, orientando e ensinando. A projeção do âmago faz com que o interesse seja despertado.

 

   O fascinante na Jornada do escritor é que se compreendem simbologias, significados de cenas e ações que passam despercebidos como se fossem meras imagens. Na verdade são construções pré-estabelecidas com objetivos a alcançar. Mas os objetivos devem ser alcançados usando novas estruturas, escolhas próprias do artista, recursos originais sem clichês ao qual o público já está saturado. O resultado desse conjunto são obras-primas e atraentes. Como exemplifica Vogler, pelo filme do diretor Alfred Hitchcock. Em Psicose a heroína Marion morre no meio da trama. Logo, o público sente a necessidade de transferir a figura do herói para outro personagem, mudando os arquétipos. A flexibilidade proporciona esse jogo com as expectativas e euforia do espectador.

 

   Os elementos da jornada do herói estão presentes tanto na história da Chapeuzinho Vermelho quanto na de Jesus Cristo. No último é bem delimitada toda a trajetória do herói. Jesus indo do mundo comum para a aventura, conquistando aliados-discípulos, guiado pelo seu mentor, Deus, passando por tentações, enfrentando inimigos, sacrificando sua vida por um bem maior, ressuscitando e conquistando a glória eterna nos céus. A história de Jesus é uma das mais contadas e representadas, sem fronteiras de espaço e tempo. O que mostra a eficiência do método.

 

  O alcance da história se dá justamente por trabalhar com a emoção universal, com sensações mais próximas do homem como o medo, as dificuldades da vida, e atitudes virtuosas como a bondade, a coragem. Qual a menina adolescente que não gosta de ver o homem ideal, mesmo que seja só em uma história? Automaticamente, transfere suas expectativas e desejos para a trama, almejando que aquela seja sua história.

 

  “A jornada do escritor” vem para auxiliar a compreender a estrutura psicológica de contos e histórias. Por que o herói é essencial, ajuda a identificar elementos apresentados através de metáforas. Escritores e leigos podem se apossar dela, seja para contar uma boa história sem perder a autenticidade e características culturais ou entendê-las, o que para muitos é útil, abrindo novas portas de interpretação. Dessa perspectiva do entendimento, filmes não serão produzidos como máquinas dominadoras. O diretor, roteirista ou autor vai ter a preocupação de criar e recriar com inovação e autenticidade.

 

Continue lendo

Deixe um comentário

Arquivado em literatura

Ética e responsabilidade

  Continue lendo

Deixe um comentário

Arquivado em jornalismo

1968. O passado ainda presente

Continue lendo

Deixe um comentário

Arquivado em 1968

Estranha?

Continue lendo

Deixe um comentário

Arquivado em contos