Junho 22, 2009

O consumismo que consome

Hoje, consumir compulsivamente não é só um ato de luxo e sim uma doença

 Cartões de crédito, cheques especiais, promoções. Todas as facilidades para adquirir produtos são disponibilizadas por um simples preenchimento de dados ou uma ligação. Consumir excessivamente é mais que um ato feito de vez em quando, para muitas pessoas é algo rotineiro e, também, problemático. Manoel Rodrigues-Neto, professor de psicologia do Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB) e mestre em psicologia do consumidor, considera a compulsão por compras uma doença.

 Entrar no shopping e sair com milhares de sacolas, que ao chegar em casa se transformam em motivo de desespero tem sido momentos enfrentados na vida de Ana[1]*. “Depressão gera vários transtornos. A questão da auto-estima no meu caso era muito baixa e me levou a ter transtorno bipolar compulsivo. Pra suprir isso eu comprava compulsivamente” afirma a jovem. Essa compulsão foi atestada como manifestação de um transtorno bipolar aliado à depressão. O professor complementa que “transtorno bipolar compulsivo é uma variação de humor, sem aparente explicação. Quando uma pessoa está em depressão pode descontar nas compras”.

 Manoel Rodrigues aponta que o distúrbio é acompanhado por uma ansiedade que leva o indivíduo a ser menos racional e mais emocional. O professor, ainda, faz uma comparação, de que o consumismo se intensifica junto com o fluxo do capitalismo. Empresas, publicitários e órgãos governamentais se apropriam dessa lógica de mercado. “A partir do momento que você compreende as variáveis do comportamento do consumidor as empresas podem se adequar melhor aos interesses deles, assim como os órgãos [públicos] podem preparar melhor as leis para não enganar o consumidor”. 

 A jovem Ana afirma que gasta para suprir uma carência, uma necessidade de completar algo que considera vazio. Há 10 anos, ela diz que possui baixa auto-estima, e que o sentimento de êxtase que encontra nas compras lhe faz sentir melhor. “Quando acabava de comprar era um alívio, mas assim que chegava em casa era um horror, tinha um sentimento de culpa. Olhava para as sacolas e nada daquilo me satisfazia, já não tinha valor pra mim”. Quando a pessoa adquire uma roupa ela acredita que aquela calça ou a blusa nova vai lhe fazer ser mais aceita e mais bonita. Não importa o quanto vai gastar e muito menos como vai pagar, o importante é ter. A jovem diz que comprava muito e depois tinha “um sentimento de ‘meu Deus agora tenho que pagar as contas como eu faço?’ ” .

 Ter uma marca ou um produto para apresentar é um fato apontado pela jovem como importante. O teórico de Karl Marx em seus estudos apresenta o conceito de fetiche da mercadoria, tal termo preconiza que o objeto adquire um simbolismo, que vai além do valor de uso, ou seja, da função do produto. A Indústria Cultural se apropria de armas publicitárias para criar o desejo. “A necessidade do consumidor leva o despertar dessa necessidade, seja pelo conforto, luxo ou praticidade”, afirma Rodrigues.

 Com mestrado em comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professora do curso de comunicação social do IESB, Luanda Schramm, aponta que há uma perda de identidade. “Hoje, a forma de identificação se dá pelo consumo. Existe um declínio do Estado Nação como categoria identitária preferencial”. Nesse caso Schramm aponta o valor cultural como influente, “pela mundialização da cultura as marcas foram convertidas em categorias identitárias. Assim você define quem você é pelo que você consome”.

 De acordo com Rodrigues a pessoa compulsiva tem mania de compras. Independente do produto. Não interessa o produto e sim o hábito de comprar, o prazer. As conseqüências do comprar compulsivo além de financeiras são estendidas para o plano pessoal e do trabalho, o que gera dificuldades de relacionamento. “Os mais afetados são os parceiros ou quem convive diretamente com essas pessoas”, afirma o professor.

 Portadores da compulsão chegam a quebrar barreiras morais para conseguir suprir seus desejos. “Faço muitas dívidas que não dou conta de pagar e tenho que recorrer à minha família. Isso gera muitos problemas. Problemas sérios de relacionamento”, afirma a jovem. Ela diz que passou dos limites quando usou todos os seus cartões de crédito, cheques e ainda pegou o cartão da sua minha irmã para uso próprio.

 Por conviver intimamente com Ana, sua irmã Camila[2]* afirma que nunca esperou esse tipo de atitude da parte dela. “Na hora que eu me dei conta do roubo, fiquei sem saber o que fazer, pois era minha irmã”.  Todos são afetados e entram em uma espécie de desespero, “logo de primeira tive um pouco de raiva, pois tudo aquilo era injusto comigo, mas depois o que senti foi pena. Eu entendi que aquela vontade era mais forte do que ela [Ana]. Foi aí que nossa família se reuniu para pensar em alguma forma de ajudá-la”.

 Os familiares tomaram a decisão de levá-la pra uma clínica, pois além da compulsão pelas compras ela começou a tomar remédios para dormir. “Para fugir da realidade e esquecer das contas. Ao invés de pensar em como pagar, eu dormia o dia todo”, conta Ana. Por sua experiência, o professor de psicologia ressalta que a decisão de procurar um tratamento, na maioria das vezes, parte da família, pois o doente sente vergonha ou acha que não necessita. Em depoimento, Ana confirma que a decisão de interná-la foi dos pais, e que só depois tomou consciência que estava no “fundo do poço”.

 O tratamento é importante e difícil, pois de acordo com Rodrigues o processo de conscientização pode ser demorado. Ele frisa que “primeiramente as pessoas devem se afastar do vício para depois, ir aos poucos, se adaptando ao problema. Aos poucos se aproximar de locais em que estaria exposta a tentação de comprar. A pessoa tem que aprender a lidar com a presença do problema”.

 Apesar de ter se conscientizado Ana conta que “a princípio senti uma angustia muito grande de estar ali [clínica], passando por aquilo, era uma situação muito constrangedora para mim e para minha família, mas depois fui vendo que era necessário, o melhor a ser feito”. Com a ajuda de psicólogos, psiquiatras e enfermeiros, Ana, ainda, passa por tratamento com consultas e ajuda de remédios antidepressivos. O professor diz que, no tratamento, nem sempre se usa medicamentos. “É uma terapia através de conversas, sugestões, atividades, relaxamento ou sugestão de atividades saudáveis, como esportes”, declara.

 Como o próprio professor de psicologia ressalta, curar um doente é um processo que pode ser longo. A jovem, que possui a compulsão por compras há algum tempo, não se sente completamente curada. “Acho que não faria as mesmas coisas, não na proporção que fiz, mas acho que eu ainda gastaria”, confessa Ana.

 O senso comum pode atribuir à compulsão como um problema do sexo feminino. Mas a questão de gênero não está ligada ao desenvolvimento da doença. Segundo Rodrigues tal conclusão se deve pelo fato de que mulheres tem mais iniciativa em buscar ajuda e admitir possuir o problema. Outro ponto relevante é que essa compulsão em homens aparece, principalmente, em outros tipos de produtos como carros, eletrônicos, bens de consumo mais caros e que atribuem status.

 Tanto Schramm quanto Rodrigues citam a questão cultural, como um dos vários fatores que podem desencadear a compulsão por compras. O professor diz que esses casos vem crescendo, uma vez que o seu diagnóstico é mais eficaz e, também, pelo aumento do poder aquisitivo e  baixo custo de determinados produtos.

 Uma ilustração dessa temática pode ser vista no filme “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”. A trama relata, justamente, os momentos de angústia e superação de uma garota que faz de tudo para ter a bolsa da moda ou aquela bota exclusiva. Alguns podem ver como uma simples comédia, mas esse comportamento não gera nenhum tipo de felicidade para quem o possui ou convive com ele e, é muito mais presente do que se imagina.

 


[1] * Nome fictício. A entrevistada preferiu não se identifcar. 

[2] *Nome fictício. A entrevistada preferiu não se identificar.

 

Fontes:

Manoel Rodrigues-Neto: (61) 34454521

Luanda Schramm: (61) 91763392

Ana: A entrevistada preferiu não se identificar

Camila: A entrevistada preferiu não se identificar

Junho 17, 2009

Entre o céu e a televisão

Um dia ao vasculhar a Folha Online, deparei-me com uma nota (segue abaixo) e resolvi testar meu, humilde, lado Gabriela Veríssimo.

 

Macedo faz pregação a artistas da Record, informa Outro Canal

da Folha Online

 O líder da Igreja Universal e dono da Record, o bispo Edir Macedo se reuniu na última terça-feira (26) com executivos e apresentadores da emissora para uma palestra sobre como conseguir sucesso. A informação é da coluna Outro Canal, assinada por Daniel Castro na Folha desta segunda-feira (1º).

A íntegra da coluna está disponível para assinantes do jornal e do UOL.

De acordo com informações da coluna, o encontro durou mais de três horas e envolveu também uma pregação religiosa.

Segundo testemunhas ouvidas pela coluna, Macedo falou aos funcionários que só se consegue o sucesso acreditando em Deus e dando ao próximo.

Ainda de acordo com o colunista, ao final do encontro, Macedo afirmou: “Vocês, artistas da Record, têm de acreditar em vocês mesmos para dar audiência. Se eu fosse artista, iria arrebentar!”.

 

O chamado divino

 Por Gabriela Sobral

ALELUIA!

 Encontrou-se uma nova fórmula para obter sucesso. Aulas de interpretação com o Bispo, por apenas 20% do seu salário. Nosso Pai agradece! O aquecimento inicia-se com a sessão do descarrego, mas não antes de se botar o copo de água em cima dos textos e câmeras, só assim a interpretação alcançará a excelência do reino dos céus.

 Mas, para chegar à revista “Rostos”… Ah! Aí vai ser necessário algo mais… Quem sabe uma ajuda ao próximo, para sua consciência ficar “limpa”? Assim como o professor (Bispo), que livra pessoas do alcoolismo, do jogo e da desgraça, com um simples toque mágico na cabeça e suas palavras tão repletas de graça. Se você não possui a “mão mágica”, serve  40% de seu ganha pão ou  todo seu âmago artístico para contabilizar 30 pontos, a mais, na audiência.

 O talento e a vocação são apenas requisitos secundários para se alcançar o sucesso. O primordial mesmo é ouvir a palavra e acreditar nela, isso pode render quem sabe um anúncio publicitário de alguma grande empresa de cosméticos ou de uma esponja de aço dançante e, por fim, muitas cifras na conta bancária de nosso exímio palestrante.

 ALELUIA!

Agora você pode arrebentar! Basta ouvir umas palavras confortantes e encorajadoras e aprender técnicas de convencimento, tudo, é claro, em nome do Pai!

Dezembro 11, 2008

Nascido em 4 de julho

 

“Nascido em 4 de julho” (1989), do cineasta Oliver Stone, remete-se anascido_4_julho Guerra do Vietnã. Mostra o conflito injusto que foi, com uma série de danos irreparáveis tanto para os vietnamitas guerrilheiros como para o EUA e seus aliados. O filme não se prende a uma versão maniqueísta, dividindo bonzinhos de um lado e crápulas do outro.

  A trama é baseada no livro e na história real de Ron Kovic, interpretado por Tom Cruise. É a jornada de um jovem patriota que se alista no corpo de fuzileiros, para combater na Guerra do Vietnã. Influenciado pela família e pela ideologia de que lutar na guerra é um ato heróico. Ele consegue se tornar um herói de guerra, cheio de medalhas. No entanto, paraplégico e confuso.

   No retorno para casa tem problemas com sua família. Após um discussão com a mãe (Caroline Kava), parte para o México. Lá  enfrenta seus conflitos psicológicos. Cenas como a de os soldados americanos atacando um vilarejo, matando civis e crianças inocentes, choca nossos  olhares. Mostra a face de uma guerra sem sentido que deixou estragos, não só físicos. Mas no âmago dos que sofreram com ela. É o caso de Ron Kovic, que fica completamente atormentado com os horrores que cometeu e presenciou.

    Ao perceber que aquela guerra era injusta. O protagonista se torna um ativista e empreende uma campanha anti-guerra. O filme termina justamente com uma cena em que ele irá prestar seu depoimento contrário ás atrocidades que estavam sendo cometidas no Vietnã e a morte de milhares de jovens americanos.

     Com um olhar humanista. Stone mostra que a guerra do Vietnã, apesar de ter sido vendida com a propaganda do patriotismo, foi derrotada pela própria propaganda. Com protestos e imagens do que estava acontecendo.

 

Dezembro 6, 2008

Cenário do medo (1968)

Dezembro 4, 2008

Casa

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  Era uma casa muito engraçada. Tinha teto, tinha tudo. Todo mundo podia entrar nela.

  Era uma casa muito engraçada. Com uma parede azul, uma porta vermelha, um quadro abstrato que mais parecia um papagaio, outra parade, também, azul com umas gravuras do tio Armando, que pareciam pentelhos de mulher. Tinha livros, uma galinha de barro. Eu dormia na rede sim, porque na varanda tinha uma que era meio torta e que de vez em sempre dava uma dor na coluna, porém, quentinha e simpática.

  Podia fazer pipi, no entanto tinha que esperar um pouquinho (só existia um banheiro).

  Era uma casa muito divertida. Na sexta-feira eu comia uma massa com molho gostoso, tomando, quer dizer, entornando um vinho tinto seco, de preferência Cabernet Sauvignon. E quando tocava o Chico do meu irmão, eu dançava, o Blues Brothers do Tropeço, eu puxava para dançar, na vez do Caetano, eu me apaixonava.

  Era uma casa em que eu tinha um quarto para me diverti (ou não) sozinha. Pintar flores e frases na parede, ver filme, chorar, planejar: uma dieta, o dia de amanhã, dominar o mundo… Podia fazer faxina ou simplesmente dormir e sonhar.

  Era uma casa que tinha um quintal com um coqueiro, uns bagulhos e um sol no sábado de manhã, que era só meu e da Kalú. Acordava bem cedo para pegar ele e ficar preta.

  Ixi! Tinha um vizinho com uma tosse, que todo dia parecia ser o dia da morte. O escarro começava cedinho e nem sei quando terminava, era semelhante à um exorcismo.

  Ao lado direito, parentes. Os arrotos do primo e do tio ouviam-se de longe. A voz de comando da prima “Dot, Bela, Malú! Pra varanda, xixi, bora xixi”, seguido de “au, au, au” (histéricos), já tinha virado quase um despertador.  A tia quase não se ouvia, só quando ela chamava a Eliete e nos finais de semanas boêmios, regados de música e discursos hilários.

  Era uma casa com uma mãe histérica (“seus merdas, vocês não tem pena de mim. Quando eu morrer vocês vão falar ‘eu matei minha mãe’ ”), maluca (“prontico PI…”) , amorosa (“faz a boneca beijoca”), cheia de planos (“Gabi ta aqui o projeto da nossa casa”) e sábia (ela é antropóloga, arquiteta e professora de artes). Um irmão sarcástico, cheio de piadinhas inteligentes (ou não), amado e com a alma mais pura que já conheci. Um padrasto idêntico ao Tropeço da Família Adams, que como todo bom psicólogo era lento (“Éeeee…”) e meio peculiar. Uma pastor-alemão boba com os donos e caçadora de ratos e pombos. Uma cunhada companheira (“Bora no comércio?”) e imprevisível. Tinha um sobrinho que é o meu bem mais precioso, palhaço igual ao pai. Por fim uma garota “metamorfose ambulante”, que só quer ser feliz… Ah! Já ia me esquecendo. Tinha também visitantes, entre os mais queridos, Domi e Mandoca.

  Era uma casa com muito aprendizado, brigas, choros, reconciliações, beijos, desenhos no pé, muitas cores, aconchegante, bagunçada e com cheiro de incenso e colônia alfazema. Lá aprendi que: “o amor me move, só por ele eu falo” (Dante Alighieri), que “só o amor me ensina onde vou chegar” (não sei) e que “não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã” (Victor Hugo).

  Era uma casa muito engraçada. Era feita esmero, na rua dos felizes, número 600.

 

 

P.S: Não sei se escrevo no passado ou no presente. Não sei se fez ou faz parte de mim, da minha vida.

 

 

Dezembro 3, 2008

Heróis em todos os lugares

Novembro 27, 2008

A jornada da vida

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 O livro A Jornada do Escritor: estruturas míticas para escritores (2ª edição. revista ampliada- Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006), do roteirista Cristopher Vogler, foi primeiramente elaborado como guia interno para roteiristas dos estúdios Walt Disney que enfrentavam sucessivos fracassos de bilheteria. Sua criação, baseada na obra de Joseph Campbell, “O Herói de Mil Faces” serviu como instrumento para elaboração de histórias que seguissem o modelo da jornada do herói.

 

  A jornada é encontrada em mitos, contos de fada e filmes. Divide-se em três atos que geralmente contém 12 estágios: mundo comum; chamado à aventura; recusa do chamado, encontro com o mentor; travessia do primeiro limiar; testes, aliados, inimigos; aproximação da caverna oculta, provação, recompensa (apanhando a espada), caminho de volta, ressurreição e retorno com o elixir. Tem o intuito de orientar o escritor em sua criação. A interpretação de que se deve segui-lo rigidamente é errada. Sua utilidade vai muito além de estabelecer regras de como fazer isso ou aquilo.

 

   A linguagem utilizada na jornada do herói pode render produções atraentes. No entanto, é preciso saber usá-la, explorando principalmente a figura do arquétipo. Eles são tipos de personalidades próprias dos homens. Quando representadas, há uma identificação do público, como se ele estivesse se reconhecendo, consciente ou inconsciente. Para os olhos do espectador, é atraente o que faz parte de sua natureza. É nesse ponto que a jornada trabalha querendo cativar. No próprio dia-dia o indivíduo se comporta como um arquétipo, para desempenhar sua função no meio que vive. Assim acontece nos filmes. Para saber o papel de um personagem, tem-se a necessidade de identificá-lo com algum tipo de personalidade.

 

   O arquétipo mais desenvolvido é o do herói. Ele é o personagem principal que vai empreender a jornada para a aventura, para o mundo desconhecido, lidar com testes, inimigos, vencer batalhas e triunfar. Apesar de ser flexível, ou seja, não precisa ser sempre o homem com capa e valente, necessita de características que promovam sua aceitação. As pessoas são heróis de sua própria história, todos têm barreiras a quebrar (como decidir ter um filho), desafios, inimigos no trabalho, metas que devem ser alcançadas (como passar no vestibular), o sucesso e principalmente, a felicidade. Mesmo que para tal tenha que fazer sacrifícios. É como se vissem suas emoções, vontades, angústias, sua vida representada.

   Os heróis são símbolos da experiência universal, o que não impede que as pessoas se identifiquem com outros arquétipos, como o pai que se vê no mentor, orientando e ensinando. A projeção do âmago faz com que o interesse seja despertado.

 

   O fascinante na Jornada do escritor é que se compreendem simbologias, significados de cenas e ações que passam despercebidos como se fossem meras imagens. Na verdade são construções pré-estabelecidas com objetivos a alcançar. Mas os objetivos devem ser alcançados usando novas estruturas, escolhas próprias do artista, recursos originais sem clichês ao qual o público já está saturado. O resultado desse conjunto são obras-primas e atraentes. Como exemplifica Vogler, pelo filme do diretor Alfred Hitchcock. Em Psicose a heroína Marion morre no meio da trama. Logo, o público sente a necessidade de transferir a figura do herói para outro personagem, mudando os arquétipos. A flexibilidade proporciona esse jogo com as expectativas e euforia do espectador.

 

   Os elementos da jornada do herói estão presentes tanto na história da Chapeuzinho Vermelho quanto na de Jesus Cristo. No último é bem delimitada toda a trajetória do herói. Jesus indo do mundo comum para a aventura, conquistando aliados-discípulos, guiado pelo seu mentor, Deus, passando por tentações, enfrentando inimigos, sacrificando sua vida por um bem maior, ressuscitando e conquistando a glória eterna nos céus. A história de Jesus é uma das mais contadas e representadas, sem fronteiras de espaço e tempo. O que mostra a eficiência do método.

 

  O alcance da história se dá justamente por trabalhar com a emoção universal, com sensações mais próximas do homem como o medo, as dificuldades da vida, e atitudes virtuosas como a bondade, a coragem. Qual a menina adolescente que não gosta de ver o homem ideal, mesmo que seja só em uma história? Automaticamente, transfere suas expectativas e desejos para a trama, almejando que aquela seja sua história.

 

  “A jornada do escritor” vem para auxiliar a compreender a estrutura psicológica de contos e histórias. Por que o herói é essencial, ajuda a identificar elementos apresentados através de metáforas. Escritores e leigos podem se apossar dela, seja para contar uma boa história sem perder a autenticidade e características culturais ou entendê-las, o que para muitos é útil, abrindo novas portas de interpretação. Dessa perspectiva do entendimento, filmes não serão produzidos como máquinas dominadoras. O diretor, roteirista ou autor vai ter a preocupação de criar e recriar com inovação e autenticidade.

 

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Novembro 26, 2008

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